sexta-feira, 20 de junho de 2014

Tapetes de Corpus Christi de volta!


A Família Vilela César se esmerou e arrasou na festa! Parabéns a todos!
Dujinha, sempre animada e animando a todos.
Minha irmã, Tata, participando da preparação da festa.
Lurdinha aproveitou o feriado e participou na confecção dos tapetes.


A festa de Corpus Christi em Carmo do Rio Claro, nos meus tempos de menina, durava todo o ano. Guardávamos todos os pós de café e tampinhas de refrigerante. Estas, eram cobertas com papel laminado. Coloríamos as serragens e, na véspera da festa, acordávamos de madrugada para fazer os tapetes. Era uma festa para a criançada. Um afago para os olhos. Acordei de manhã pensando nisto, já que tinha visto na Tv tapetes de Ouro Preto e Congonhas e, quando abri o computador, vi que a tradição voltou às ruas de Carmo do Rio Claro. Pesquei estas fotos dos álbuns de Nana de Minas, Valéria Soares, Eugen Emmerick e Dujinha Aschar.

Veja o que diz a Wikipédia sobre esta tradição:

A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII. A Igreja Católica sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão consagrado. A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV com a bula Transiturus de hoc mundo de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes.
O papa Urbano IV, na época o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège, na Bélgica, recebeu o segredo das visões da freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, que teve visões de Cristo demonstrando desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque.
Por solicitação do papa Urbano IV, que, na época, governava a Igreja, os objetos milagrosos foram para Orviedo em grande procissão, sendo recebidos solenemente por sua santidade e levados para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corporal Eucarístico. A 11 de agosto de 1264, o papa lançou de Orviedo para o mundo católico através da bula Transiturus de hoc mundo o preceito de uma festa com extraordinária solenidade em honra do Corpo do Senhor.
Para um maior esplendor da solenidade, desejava Urbano IV um Ofício para ser cantado durante a celebração. O Ofício escolhido foi composto por São Tomás de Aquino, cujo título era Lauda Sion (Louva Sião). Este cântico permanece até a atualidade nas celebrações de Corpus Christi.2
A festa de Corpus Christi foi decretada em 1269.
O decreto de Urbano IV teve pouca repercussão, porque o papa morreu em seguida. Mas se propagou por algumas igrejas, como na diocese de Colônia, na Alemanha, onde Corpus Christi é celebrada desde antes de 1270. A procissão surgiu em Colônia e difundiu-se primeiro na Alemanha, depois na França e na Itália. Em Roma, é encontrada desde 1350.

sábado, 7 de junho de 2014

A grande conspiração

O Sérgio (não mandou o sobrenome), neto do juiz de direito, Merolino Corrêa,  nos anos 30,  mandou uma história interessante protagonizada pelos seus avós, que gostavam de aprontar umas brincadeiras. Deve ser por isso que ele amou muito o Carmo, pois nós carmelitanos também gostamos de criar algumas. Agradecemos a contribuição. Pode mandar histórias, aqui é o seu espaço.
Também convidamos o Sérgio para ir ao Carmo um dia destes e beber também a água da Jacuba que encantou seus avós.




A GRANDE CONSPIRAÇÃO DO CARMO

OU (PARA FICAR MAIS CHIQUE)

THE GREAT CARMO CONSPIRACY

Essa história se passou nos anos 30 em Carmo do Rio Claro, quando as pessoas ainda se conheciam sem ser pelo Face e conversavam, jogavam e brincavam juntas; é, portanto, uma história de antigamente. 

Meu avô Merolino Corrêa era Juiz de Direito no Carmo, e apaixonado pela cidade. Vovô era um amazonense filho de imigrantes, um português e uma francesa; mas vovó era uma Martins da Costa Cruz de Os Martins da Costa estão em Minas desde o tempo da Colônia e das Sesmarias; e como toda boa família mineira certas características passam de avô para neto: todos são bons cavaleiros e pouco dados a demonstrar emoções; as mulheres são geralmente bonitas, mas todas elas têm em comum uma bela bunda e um gênio horroroso; a primeira sempre fez os homens esquecerem o segundo, até que seja tarde demais. Os homens são ou gênios ou bestas quadradas, sem muito meio-termo; e quase invariavelmente bons atiradores. Todos – homens e mulheres – gostam da terra, das plantas e dos bichos: mesmo os que se mudaram para a cidade grande há muito tempo ainda fazem questão de um pedaço de chão, pelo menos uma chácara. São todos bons dançarinos e animam uma festa como ninguém; por outro lado, não são muito chegados em igrejas. E adoram pregar peças nos outros – para a família, é algo entre uma ciência e uma Pregar peça todo mundo prega, mas as dos Martins da Costa isso vai muito além de trocar um copo de água por um de pinga ou vodca quando o freguês não está olhando: algumas populares antigamente eram trocar os cartuchos dos primos por de pólvora seca e gozar deles quando erravam os tiros; colocar azul de metileno no velho aquecedor da fazenda para ver alguém sair do banho pintado de azul, mandar uma célebre doceira de Leopoldina disfarçar cebolas em maçãs, plantar pimentas Habanero gigantes só para substituir por elas inofensivos pimentões. Quanto mais elaborado, melhor; e como o alvo preferido era geralmente alguém de quem se gostava, o ofendido preferia encarar tudo na esportiva – e tirar a forra na primeira oportunidade. 

Meus avós foram morar no Carmo quando ainda estavam recém casados e não tinham filhos (vovô tinha um do primeiro casamento, mas esse só aparecia nas férias), e não era incomum alguma parenta solteira ir de Cataguases até lá para passar um tempo. E digo “um tempo” e não “alguns dias” porque naquela época para se ir de Cataguases até o Carmo era complicadíssimo: trem até Belo Horizonte com muitas horas de viagem e baldeações no caminho, e idem de BH até o Carmo - uma viagem de dois ou três dias. 

A da vez era a Nair, vagamente prima da vovó mas “agregada” da família. “Agregado”- nada de pejorativo – era aquele parente ou meio parente que era filho único ou de pai ou mãe viúva (acho que era o caso dela) e que passava tanto tempo na casa dos primos que era considerado mais irmão do que primo (vovó tinha seis irmãos – cinco de sangue e um de criação - e eles eram para a época uma família “pequena”). Já devo ter visto algum retrato da Nair quando ela era moça, mas não me recordo: quando a conheci ela já tinha uns sessenta anos, e me lembro da pele pálida, dos traços bem feitos, e de uma certa elegância. Mas bonita mesmo ela nunca deve ter sido: para começar, era pequena demais – o eufemismo preferido naquele tempo era mignon, mas ela estava mais para mignonette – baixinha em excesso. Se bem me lembro, ela parecia um camundongo simpático, como a Minnie: risonha e tal, mas miniatura. 


A Nair era a noiva eterna do Jaime: bom moço, boa família e tal e coisa, filho de um pequeno farmacêutico em Cataguases, mas que ainda não tinha se acertado na vida, e ficava esperando um bom concurso para passar – Banco do Brasil ou Caixa Econômica – antes de se casar. Enquanto isso, ficava ajudando o pai na farmácia. Para falar a verdade, para quem conheceu o Jaime já sessentão, a impressão era de que ele era até demais para a Nair: não era nenhum Adônis, mas mesmo depois de velho era mais para alto, magrelo, ereto e bem posto, impecavelmente barbeado e penteado (bigodinho à la Clark Gable incluído), muito claro, sempre bem vestido (calça, paletó e colete, mesmo depois de aposentado), e cheio de perfumes e pós. 

Mas na época da nossa história a Nair já devia estar meio cansada de esperar, e devia também estar enchendo a paciência da minha avó, a quem não restou senão reagir como Martins da Costa, e parar de se fingir solidária, e tentar voltar a amiga à realidade com uma boa peça. E foi aí que minha avó propôs ao meu avô , provavelmente debaixo das cobertas e numa daquelas frias noites do Carmo (das quais meu avô, filho de dois pais vindos do frio – meu bisavô das Serras, minha bisavó dos Pirineus, mas nascido no Amazonas, - tanto gostava):

- E se a gente arrumasse um namorado para a Nair?
- Está louca, Carlota? Eu não sou alcoviteiro; além disso, a moça é 
comprometida...
- Não estou falando de um namorado de verdade, Merolino. Estou falando de alguém que a faça... cair na real. (Com mais do que certeza, minha avó não falou “cair na real”, porque não era uma expressão da época, nem vovó repetia impunemente coisas ouvidas na Rede Bobo. Mas que foi algo equivalente, foi.).Mas foi assim que daí a alguns dias – chavão sobre chavão e clichê sobre clichê – a Nair recebeu uma carta anônima de um admirador secreto, ou vice-versa. E a partir daí, a Grande Conspiração do Carmo começou.

A primeira carta em si era uma peça bem familiar: idealizada por minha avó e escrita pelo meu avô, era uma obra-prima de sincera admiração de um Cavalheiro do Sul de Minas – do tipo educado-no-Caraça- mas-que-fugiu-dos-estudos-para-assumir-as-terras-dos–pais - por uma etérea e vaporosa donzela da Zona da Mata. Mas que os artífices eram mestres, eram, e a carta enganava qualquer um: vovó era uma brincalhona nata, e vovô – que podia fazer o papel de sisudo Juiz do Carmo para os desavisados – ganhara a vida na Faculdade como repórter d’O Dia e d’A Noite, e como colaborador frequente do “Malho” e da “Careta”, as principais revistas humorísticas do Brasil de então. (E era, além disso, sobrinho do poeta Raimundo Corrêa – que às vezes assinava Correia para contrariar – e pai do jornalista Villas Boas Corrêa, e futuro avô de Marcos de Sá Corrêa: dificilmente um amador). 

A primeira pessoa do Carmo teve que ser recrutada desde logo: tanto a caligrafia do meu avô quanto da minha avó eram inconfundíveis – as precisas e floreadas letras redondas dele, os garranchos precisos dela – e até uma pessoa crédula como a Nair reconheceria logo a letra de um ou do outro. O jeito foi confidenciar a brincadeira aos carmenses, que aderiram O primeiro voluntário a transpor para o papel o personagem de namorado da Nair foi o Escrivão, mas esse não servia – perfeito demais. Uma amiga da vovó se ofereceu, mas meu avô recusou: a letra era demasiado feminina. No fim coube a um advogado local, de letra caprichada, o papel de transcrever as cartas de amor à interessada Nair. 

E as cartas foram se tornando mais e mais sinceras e íntimas, e a Nair- como era natural – começou a perguntar aos locais sobre o admirador Por aí todo o mundo no Carmo já sabia da história, mas demonstrando tanto senso de humor como discrição – duas qualidades das mais louváveis – acabou aderindo à brincadeira. E quando a Nair perguntava, as moças descreviam o Homem Ideal: rico, bonito, trabalhador, alqueires e mais alqueires de terra, religioso, bom filho e tal... E os homens concordavam: sujeito leal, respeitador... um pouco quieto e sonhador, mas daqueles para quem fio de barba é documento... E a Nair cada vez mais caída pelo misterioso carmense.

Carta vai, carta vem (sempre por portador, com a resposta indo invariavelmente acabar nas mãos do meu avô), a Nair resolve marcar um encontro – bem na praça do Carmo. Bom, era o fim do jogo: depois de levar um bolo nem alguém como a Nair iria persistir namorando por carta, ainda que em trinta e poucos. O jeito era deixá-la mofando um pouco, e depois mandar alguém para confessar a brincadeira. Foi então que um capiau passou em frente ao Forum, montado num cavalinho bem jeitoso e tentando vender uns cachos de banana – e meu avô teve uma ideia. Chamou o capiau, explicou a situação e ofereceu uma gorjeta para que ele se entendesse com a Nair. E nem precisava ter oferecido dinheiro, porque só por fazer um 
malfeito daqueles o capiau já se satisfazia: o sujeito se mostrou um ator afamado e consumado. Sem qualquer ensaio ou script se chegou na Nair todo humilde, de chapéu na mão e pedindo mil desculpas em nome do patrão imaginário: pois não é que alguém tinha posto fogo no cafezal, e o patrão não pudera vir ao encontro... Não, não fora numa fazenda daqui: fora numa das outras, lá em São Paulo... O patrão tivera que viajar às pressas... Mas então ele tinha mais de uma fazenda? Ora, umas cinco ou seis: uma no Carmo... duas no Guaxupé... mais umas duas ou três em São Paulo... Era tanta terra que ele nem sabia aonde. E mesmo na horinha de sair o patrão ficara desesperado em perder o encontro, e mandara ele para dar o recado, junto com um buquê de flores para a Dona Nair... Mas que ela perdoasse: ele fora com tanta pressa para passar a mensagem que o buquê acabou caindo do cavalo no caminho... Pelo amor de Deus, será que ela ia contar aquilo ao patrão? Ele não queria nem pensar no que podia acontecer a ele, já que o patrão gostava mais da Dona Nair mais do que qualquer coisa no mundo... Será que a Senhora não aceita pelo menos um cacho de bananas?

E foi assim que a Nair entrou em casa com um enorme cacho de bananas, como se fossem as mais belas rosas do mundo. E o namoro por correspondência continuou, agora com o noivo convenientemente distante
remexendo as cinzas do cafezal incendiado no interior de São Paulo.Mas um dia o tiro saiu pela culatra: vovó chegou em casa e pegou a Nair escrevendo uma longa e chorosa missiva. E não era para o namorado imaginário, mas para o noivo legítimo, o Jaime: que ele perdoasse, mas ela estava apaixonada por outra pessoa... A Nair podia ser cabeça de vento, mas era uma moça honesta: por mais que a vovó a dissuadisse ela acabou indo até o correio e entregando a carta, que foi devidamente selada, carimbada e postada. 

Vovó correu até o Forum e contou o ocorrido ao vovô, e lá se foram os dois para os Correios – a galope. Chegando lá vovô exigiu a carta, só para receber um sermão da encarregada da agência: será que ele, o Juiz de Direito, não sabia que violação de correspondência era crime? E foi preciso muita explicação e razão até que a carta fosse devolvida e devidamente rasgada em mil pedaços; mas os dois acabaram em concordar que a brincadeira fora longe demais. O óbvio seria contar tudo à Nair, mas a coisa já atingira tão grandes proporções que uma confissão implicaria em relações permanentemente rompidas – e minha avó podia ser brincalhona, mas amava a Nair como No fim foram os do Carmo que propuseram a solução: bom moço e tal, mas quase certamente portador de uma horrível doença contagiosa – 
lepra ou tuberculose, não me lembro. E a partir daí cada carmense que se 
encontrava com a Nair se encarregava de acrescentar seu copo d’água fria ao balde de gelo: rico, educado, boa família... Mas porque nenhuma carmense o queria? Mulheres bonitas ali não faltavam... Era a DOENÇA; se ela não se importasse em ser uma viúva em breve... Com um ou dois filhos para criar... 

Dentro de menos de um mês a Nair arrumou as malas e voltou para Cataguases; uns seis meses mais tarde o Jaime finalmente foi aprovado no Banco do Brasil, e os dois finalmente se casaram. Quando os conheci –
décadas mais tarde – eram um casal sem filhos, elegante e meio formal, e eu poderia jurar que a Nair um dia deixara alguém para trás: aquele carmense anônimo (e inexistente, mas nem ela sabia disso nem nunca veio a saber, porque ninguém teve a coragem de contar). 

Vovô teve três comarcas “de primeira”, como se dizia então: Tremedal (hoje Rio Verde), Palmas e Carmo do Rio Claro. Passou um ano nas duas primeiras, e mais de cinco no Carmo. Só quando minha avó engravidou pela segunda vez (a primeira filha morreu no parto) foi que ele criou coragem para abandonar o seu querido Carmo, e procurar sua promoção (o que para nós significa 10% a mais de salário, e não é de se desprezar). Nunca ouvi nada sobre o tempo dele no Tremedal, nem em Palmas: só no Carmo.

E o noivo imaginário? Gosto de pensar que ele ainda continua por aí, vendendo saúde e cada vez mais rico; e, como é imaginário, não envelheceu um só dia. E andou se atualizando: hoje ele não tem mais só belíssimos cavalos mangalarga, mas também uma coleção de caminhonetes e carros importados, além de um avião e um barco para passear em Furnas. 

E as mensagens para as donzelas desavisadas seguem agora por email, pelo Facebook, o Whatsapp e o Twitter. E ele continua fazendo sucesso. Eu mesmo só estive no Carmo uma vez, e de passagem: adorei a cidade e jurei voltar um dia com mais tempo, mas faltou oportunidade. Mas hoje – confesso – talvez seja um pouco de medo: se um carmense imaginário já consegue virar a cabeça de uma pessoa honesta e sensata, imagina o que uma morena-loura de carne e osso do Carmo pode fazer?"


Sérgio (neto de Merolino Corrêa, que foi juiz em Carmo do Rio Claro)


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Mensagem recebida: alguém conhece?

Olá! Saudações a Carmo do Rio Claro, uma linda cidade do interior. Meu avô foi juiz lá na década de 30, e apaixonou-se tanto que quase não quis sair...
Acho que o Fórum depois de reformado tem o nome dele; meus pais foram à reinauguração, mas eu estava no exterior na época.
Sempre tivemos na casa dos meus pais os cobertores de pura lã de carneiro do Carmo; eu mesmo uso um  há mais de vinte anos. 
Continuam fabricando os de pura lã?
Lembro-me de um senhor do Carmo que sempre nos visitava quando ia a BH; era sírio (ou libanês) e levava sempre uns biscoitos duríssimos que fabricava, e mais um saco de feijão. 
Quando eu tinha uns quatro anos abri a porta para ele e gritei para dentro:
- "Vô! Seu amigo turco que traz biscoito duro e feijão bichado veio te ver!"
Custou para alguém ter coragem de ir à sala... 
Mas ao que parece ele era uma pessoa boníssima.
Meu avô - um grande galanteador quando vovó não estava por perto - viveu gabando as "morenas-louras"do Carmo.
Será que alguém lá ainda se lembra dele? Chamava-se Merolino Corrêa. 
Abraço,

Sérgio.  


E aí, pessoal, alguém sabe responder para o Sérgio. Alguém conheceu Merolino Corrêa? E alguém tem ideia de quem seria este 'turco' a quem ele se refere? O Fórum tem o nome dele?  Quanto as colchas de lã de carneiro, são poucos os que ainda fazem. Os carneiros eram muito comuns naqueles tempos, antes das águas, quando o Carmo era muito frio, geava nas várzeas. Na Fazenda Água Limpa, onde fui criada, criava-se carneiros e nós víamos quando tiravam os pelos e os carneirinhos saíam correndo pelados, me parece que era justamente no frio, tínhamos muita pena! Num tempo mais antigo havia teares e lá mesmo se confeccionava os paletós, colchas e mantôs de pura lã de carneiro.

sábado, 24 de maio de 2014

Casa da Nivalda - tem histórias!

Alguns famosos já passaram pela Casa da Nivalda, onde vivíamos na década de 70, na rua Dr. Monte Razo, 55. Muitos dos nossos parentes migraram para São Paulo, após a tragédia das águas de Furnas. Perdas de terra, banzo, pobreza. A rádio convidava para ir para São Paulo... São Paulo é São Paulo, terra da garôa, o povo de São Paulo é muito gente boa. Eu vim para São Paulo e não vou sair daqui. São Paulo conte comigo enquanto eu existir... Na década de 50, o fluxo é para o Rio de Janeiro. Para lá foi o Tio Dario, o Tio Toninho, a Tia Rosina e outros. Foi mesmo na década de 70 que a migração voltou para São Paulo. Os que foram prosperam, venceram, como se diz. É o exemplo do Milton Luíz, que galgou os maiores degraus profissionais, tornando-se o melhor diretor de recursos humanos do Brasil. Ele, o Dito venceram em Sampa. Voltaram às origens e construíram casas no Honduras.
Um momento em frente a Casa da Nivalda. Lá no fundo, o saudoso Ralê, educação pura, muito querido.


Eles voltavam com amigos, os mais diversos, os mais diferentes. O Jói, irmão da Carmo/Pepeca levou ao Carmo o locutor Jorge Helau, da rádio Tupi. Carla que conta. Acordou e de repente ouviu uma voz muito parecida com a voz de um locutor. Descabelada, deu com Jorge Helau comendo rosca na sala. Depois, a Carmo Soares, enfermeira e atriz, levou o pessoal do Grupo Mambembe, do qual fazia parte, para passar um carnaval. Aprendi com esta atriz a me pintar. Ela nos levou ao quarto e nos pintou para o carnaval. Rosi Campos, hoje global. Também fazia parte do grupo Genésio de Barros. Este, frequentou muito a Casa da Nivalda, isto porque namorou a filha dela, no caso, esta blogueira que vos fala.
Genésio de Barros naqueles dias.
Olha o Quinzé pequenininho.


Aquela casa rendeu histórias e está no imaginário de muitas pessoas da  minha geração. Muitos frequentaram o alpendre, que, vim a saber depois, era conhecido por bezerreiro pelos vizinhos. A turma da Ludi - dela fazia parte o Mazarolo, o Boquita, o Adalberto e Adriano, Maria Flávia, Patrícia etc - e a nossa turma - Marcelo, Flávio, Tércio, Luiz Eduardo Palacine, Silvia Vilela, Codô, Edna, Maria do Carmo Soares, Bel, Terezinha, Neusa,  Maísa, Tarcizinho, Ricardo primo, Big Boy, Duda, Fred, Ralê - tantos e tantos outros passaram por ali.

Quando o movimento da cidade acabava, nos idos de 1970, os colegas iam para a Casa da Nivalda. Ela ficava fazendo crochés e pipoca para a moçada, que só saía dali pelas madrugadas. Muitas vezes, eles acabavam ali fazendo uma serenata. O Diô, na época, era assíduo nas serenatas e começava sempre assim - não me canso de falar que te amo. A serenata mais linda que ouvi foi do Fordinho e do Luís Pandeiro para Ana Maria, minha irmã mais velha... A lua vem surgindo cor de prata, do alto da montanha verdejante. ..
Bom mesmo era colocar as cadeiras na frente da casa e prosear. Abaixo, o saudoso Toni, a Cláudia, Maria do Carmo Soares, eu e a Edna, em frente a Casa da Nivalda.
Vovó estava vivendo seus últimos dias no quarto.
 A lua estava escancaradamente cheia. Um momento muito especial.

Pra frente Brasil!

Eu tinha 13 anos, e me lembro bem da Copa de 70. Pela primeira vez víamos a Copa ao vivo e a cores pela televisão. Eu ia assistir os jogos na casa da Dujinha, no casarão que já foi derrubado, na Praça da Matriz.


Era muito emocionante. No entanto, vivíamos numa alienação geral. A ditadura estava nos seus mais duros dias, prendendo, torturando, matando, exilando as melhores cabeças, os nossos artistas e intelectuais. As rádios anunciavam: Brasil, ame-o ou deixe-o. O mais terrível governante desta época negra, o Médici. Ele usou e abusou da Copa e dos jogadores para enaltecer a sua imagem. Mas a gente não sabia disto naquele distante dia no interior das Minas Gerais. Foi muito, muito emocionante quando nos tornamos Tricampeões do Mundo. Saímos em passeata pela rua e, à noite, fomos para a antiga sede do GEC, na antiga XV de Novembro, hoje Camilo Aschar, e pulamos carnaval a noite toda. Foi um dos meus primeiros bailes.


Tanto se passou desde então, outras Copas. Uma delas, acho que quando se tornou tetracampeão, eu estava em São Paulo. Foi quando percebi o tamanho da cidade. Saímos andando e a festa continuava pelas ruas - 100 km de cidade. A interiorana, meio carmelitana meio belorizontina pensava: aqui tem um tanto de Savassi, uma atrás da outra. As manifestações eram pacíficas.
Tetracampeão


O cenário desta Copa de 2014 é uma incognita. Daqui a 3 semanas, começam a chegar milhares de turistas entre nós. Eles vão conhecer um Brasil violento, exigente, destruidor? Tantas ações se encontram atrás destes movimentos, interesses de esquerda radical, interesse da direita, bandidagem por bandidagem mesmo. Há demandas reais nas manifestações, sem teto, sem casa, prejudicados pela Copa. Me preocupa é o gosto de ver o circo pegar fogo. Interessa a quem?

Eu quero receber bem os visitantes e mostrar este lado hospitaleiro, amigo, receptivo do povo brasileiro. Vou vestir camisa verde amarela, empunhar minha bandeira e  me emocionar mais uma vez com o Hino Nacional. Lembro-me de uma das Copas em que os hinos eram traduzidos. Quase todos falavam de sangue, guerra. O hino do Brasil fala da natureza e de paz. Isto sempre me emocionou. Tínhamos antigamente a matéria de Moral e Cívica e me lembro do Tio Milton ensinando sobre a bandeira, a ter respeito pelos símbolos nacionais. Cantei, cantei muito esse hino com toda a força do meu coração e a juventude do meu corpo de então. 



PRA FRENTE BRASIL

Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil
Do meu coração


Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a Seleção


De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração!


Todos juntos vamos
Pra frente Brasil, Brasil
Salve a Seleção


Segundo a Wikipédia, a música" Pra Frente Brasil" foi composta por Miguel Gustavo. Foi cantada pelo país na euforia ufanista gerada pela primeira transmissão ao vivo de uma Copa e tornou-se hino desta edição para os brasileiros. Sua origem deve-se a um concurso, com premiação de dez mil cruzeiros, organizado pelos patrocinadores das transmissões da Copa - Esso, Souza Cruz e Gillete, em parceria com a Rede Globo. 



Nossos heróis.


O ditador Francisco Garrastazu Médici

sábado, 17 de maio de 2014

Meu pensamento passou pelo Bar XV

Os Novos baianos
Preta preta pretinha preta preta pretinha... eu ia lhe chamar enquanto corria a balsa...
Devemos aos queridos do Bar XV - o Jé, a Chiquita, a Helena, a Marly estarmos sempre atualizados na melhor música popular brasileira. Chegavam sempre com a novidade. O bar era nossa casa. Entrávamos lá dentro, íntimos e comíamos o amendoim liberado. Trocávamos os discos da vitrola. Houve uma época que o Bar XV virou boite com luz negra, enfeitado com fotos de artistas de cinema, Raquel Welch, Brigite Bardot. 
Brigite Bardô

Rachel Welch

Crônicas de Belo Horizonte

A Cantina do Lucas
O Maleta por dentro.
O Sô Domingos, personagem inesquecível da Cantina do Lucas dos anos 70/80.
Hoje fui no Maleta, Edifício Maleta, tradicional em Belo Horizonte, na Avenida Augusto de Lima. Na década de 60 tinha ali os "inferninhos', de quem muito se lembra Milton Nascimento e o Clube da Esquina. Ali, era minha casa nos idos dos anos 80, tempo da ditadura. Tinha o "cana" do Maleta. Ali se reuniam os intelectuais, artistas, poetas e estudantes. Saíamos da Fafi BH/hoje Uni BH, ali na Av. Antônio Carlos e íamos para o Maleta. Ali, encontrávamos com nos professores, o Etiene Arreguy, o Orlando, o Elli... Tempo de efervescência na literatura marginal. Tinha sempre um poema no bolso para ler alto para o Paulinho Assunção, que estava lá todos os dias tomando o seu Whisky. Lá pelas tantas, passava o solitário Murilo Rubião, que batia o ponto no "Pelicano". Tinha um poeta que fazia poemas em guardanapos. Dizia-se que ele  morava em um quarto com uma cama e cercada por caixas e caixa de poemas em guardanapos.

Hoje, fui no Maleta de hoje. Tribos alternativas, tipos os mais diversos, um novo homem, um novo de jeito de ser, livre. Havia uma feira de arte gráfica, com muitos livros. Me lembrei dos tempos em que andava ali mesmo vendendo meus livros mimeografados. Nossa, como sou antiga, do tempo do mimeógrafo. Andávamos por lá - Wanderley Batista, José Alexandre Marino, Carlos Herculano Lopes, Júlio Emílio Tentaterra, Adão Ventura, Régis Gonçalves. Tempo do saquinho de poesia de Ouro Preto. Fazíamos saraus, movimentos.

Não há como ir ao Maleta, e não voltar lá atrás. Dá uma espécie de nostalgia,  uma saudade da juventude, uma sede de vida. Fomos ao bar do Santiago, um amigo argentino, que tem um bar na varanda que dá para a rua da Bahia. De lá, o visual de um prédio que hoje abriga o Museu da Roupa, em estilo manoelino, parece uma igreja; ao lado o Museu Inimá de Paula, também em estilo antigo. A lua cheia ajudou, o drink de Malibu com água de coco também e a "fauna" interessantíssima ao redor, o puro novo circulando ao nosso redor, tudo isto fez esta noite memorável.

A ditadura se foi. o Sô Domingos, garçon da Cantina do Lucas, que era comunista convicto e que ajudou a esconder muitos naqueles tempos duros, já se foi. O Pelicano mudou de nome. Murilo Rubião subiu. Paulinho Assunção não sei se ainda vai tomar Whisky no Lucas. Mas ainda circula ali a pura novidade, a contestação. O Maleta continua.

sábado, 19 de abril de 2014

Sebastião José Soares

Muito elegante meu avô, Sebastião José Soares, o Sô Soares. Na foto acima, ainda jovem, este carioca de Morro Agudo que chegou ao Carmo e conquistou minha vó Alice. Para ela, ele escreveu o verso:

ALI SE TEM SÓ ARES DO CAMPO!
Sô Soares 

Sebastião José Soares, o Soares, marido de Alice Figueiredo era carioca, do Rio de Janeiro, de Morro Agudo, Baixada Fluminense. Veio para o Carmo para trabalhar como gerente do Vapor Francisco Feio. O Vapor Francisco Feio desembarcava neste porto, onde o Sô Soares tinha o escritório de café.Tinha um escritório no Porto Carrito. Já casado com Tia Alice, com a crise do café de 29, ele perdeu dinheiro. Vendeu a fazenda no Sapucaí, foi para Nova Iguaçu, Morro Agudo, plantar laranja. Depois, retornou ao Carmo. Tia Alice conheceu os pais de Sô Soares, Dona Joana e Sr. Luiz.  Era telegrafista, sabia as notícias antes de todos, captando sinais do telégrafo no rádio. A família morava no Porto Carrito, onde tinha uma hospedaria. À frente, havia uma grande paineira. Vô Soares, ao voltar ao Carmo, trabalhou na prefeitura.

Curioso!

Na foto acima, as irmãs Figueiredo ainda jovens. Na debaixo, elas já velhinhas: Tia Carmelitana, Tia Lourdes, Tia Rosina, Tia Corina, Vó Alice e Tia Dalica (acho que acertei os nomes). O que eu acho mais interessante é que a foto da vovó Alice, a terceira mulher da direita para a esquerda (no alto) revela nossa semelhança. O tempo passa....

Para encher os olhos com o céu do Carmo...

Foto de Eugen Emmerick, um lapso da beleza em Carmo do Rio Claro!

Lá do Carmo, fotos do César Marinho, o Boquita...


Olha a cara boa do César, tá no Carmo, tá no céu...


Semana Santa em Carmo do Rio Claro

FAZENDA ÁGUA LIMPA - antes e depois

CHÃO

Venho de estrada de terra vermelha
De café e bolo de fubá na varanda
De berrante
Boiada
Rodeio
Venho de tardes sonolentas
Onde zumbido de mosquito é música
Que embala sono
E cigarra tanajura aleluia paturi
Tatu galinha cavalos manga de vez vacas mochas mojando, papai sorrindo
Cheirando à tinta de pena
a suor de campo
 vaca parida na várzea.
Mãe lavando roupa com anil
Cheirinho roxo quarando ao sol
Panelinhas e a gente criando a casinha
Colhendo ovos e alfaces
Matando frangos que saíam pulando sem cabeça porque eu não conseguia não ter dó
então eles pulavam,
mas na hora de dividir
o santo antônio era meu
e o jogo brigado aos gritos
até papai decidir a questão.
Venho de orvalho molhando pés
Leite fresco de vaca
Pai e mãe rezando terço
Desejando boa noite
Barulho de cobras, grilos e sapos
Lá fora no meio do mato.












Os santos da Família Pereira.

Nesta Páscoa, resolvi lembrar pessoas que realmente foram cristãs. Eu tive um tio que era santo. Chamava-se João Teixeira. Era irmão da mãe da mamãe, minha avó Beatriz, também uma santa. Nesta semana santa, vou reproduzir um artigo que sua prima, Rosalda, escreveu em Cascatinha (deve ser alguma fazenda de Barro Preto), em 19 de dezembro de 1934.  João Teixeira era para mim é uma foto que tinha na casa da Tia Anésia e do Tio Evaristo. Eles moravam em um sítio ali no São Benedito. A foto me encantava, coloria os meus domingos, quando deixava meus pais lá fora chupando laranja e ia contemplar aquele moço lindo na parede da Tia Anésia.
Vou reproduzir o português da época:

“TUDO TRISTE
(Pela morte de João Teixeira)

Fecho-me sósinha em meu quarto silencioso e triste para mais uma vez meditar sobre a sua morte tão prematura.
É sob a influência do triste aspecto de um dia de chuva que escrevo estas linhas, parecendo que a natureza toda se compraz em argumentar a minha tristeza...
Quis ver-me antes de morrer... Chamaram-me às pressas. Fui. Quando cheguei, todos me abraçaram chorando e eu tive que me deter na sala atè que passasse um pouco a emoção. Enxugando depois as lágrimas que teimavam em saltar-me dos olhos tomei alento e entrei. Parecia já um cadáver,  mas se a matéria sucumbia o espírito não fraquejava ainda: porque quando abriu os olhos, os grandes olhos, fitou-me tristemente e disse:
- Você chorou; e porque? Isto não é nada., O que poderá acontecer è eu morrer, mas para isso  já estou preparado. Confessei-me hontem e Deus està commigo. E como eu lhe pedisse para não falar em morte elle continuou: - Creia minha prima, que nunca desejei a morte, porque isto não é digno de um christão, mas sempre pensei nella e nunca me esqueci destas palavras da Sagrada Escriptura: - “Lembra-te que és pós e que em pós te tornarás”. E continuou ainda: Deus era Senhor do meu destino por isso o aceitei resignado.
Sahi da casa de meus paes procurando luctar pela vida e fui buscar a morte. Deus assim o quis e eu dou-lhe infinitas graças por me ter permittido regressar com vida a casa paterna, concedendo-me a suprema ventura de morrer no regaço materno, recebendo a benção de meus paes e o beijo de meus irmãos.
Tentei animal-o para a vida, dizendo-lhe que estava muito moço ainda para pensar em morrer e que tomasse com regularidade os remédios para que sarasse e sahisse logo da cama. Respondeu-me: Sahirei amanhã cedo se Deus quiser.
E  com efeito, ás sete horas da manhã do dia seguinte entregou sua alma a Deus. Sim, pode-se ter quasi a certeza de que Deus o recebeu em seu Reino porque sabe que foi um santo e morreu com as melhores disposições de espírito.
Para provar esta verdade copio aqui um trexo de uma carta escripta por elle.
Trexo de uma carta  escripta em 9 de março de 1934:

Sempre bondosa prima,
Recebi tua carta que, como sempre veio dar-me immenso prazer, mormente agora que ando doente e aborrecido.
Tudo para mim tem se tornado nubloso, parecendo que um véu espesso turva a minha existência. Há momentos em que vontades exquisitas.
Estar em um logar ermo, onde só exista o meu Eu, Deus e a Natureza.
Minha prima. Bem sabes que sempre confiei em ti e por isso tomo a liberdade de contar-te todos os meus pensamentos, porque sei perfeitamente que os sabes comprehender. É verdade que nada tens com meus pensamentos, ou melhormente com a minha vida, mas, como já te disse, és a minha confidente e sinto-me feliz em relatar-te os meus sentimentos. O meu ideal, de certos tempos para cá, è ser padre; mas é um ideal que me preocupa seriamente.
Já sou um tanto idoso (25 anos) mas isto não me empediria; o maior impedimento é o meu estado de saúde que não é muito bom, devido aos grandes abalos moraes porque tenho passado de alguns mezes para cá; insucessos em negócios e sobretudo a deslealdade de alguns amigos iníquos.
Tenho pensado que não haverá mais sublime que ser um guia da humanidade. Sim; dessa humanidade actual que irrefletidamente segue a vida a seu bel prazer, esquecendo-se que existe um Deus a quem todos nós temos que prestar contas um dia. Sabes perfeitamente que o século que atravessamos tudo admite e, eu, nas minhas horas de reflexão, penso que se fosse um padre saberia arrebatar essa humanidade perdida do caminho do mal para o caminho do bem; não como um sábio, mas como um devotado ministro de Christo, mormente na actualidade que vejo mundo composto de hypocrisia e falsidade.
Que dizes das minhas ideias? Sinto deveras não gozar boa saúde, sinão poderias contar que daqui a uns oito annos tinhas um primo padre. Mas sei que o meu esforço por mais que seja irá sempre prejudicando e não chegarei a realizar o meu desejo; de formas que contentar-me-ei em ir alimentando os meus doces ideaes.”

João Teixeira não foi um poeta, não foi um artista, não foi um sábio e nem foi um santo. Mas foi tudo isto ao mesmo tempo, porque soube sempre comprehender e admirar o que é bom e bello.
Foi mais ainda um amigo de todos; pobres e ricos, sábios ou nescios. Estimava os ricos e amava os pobres. Admira os sábios e compadecia-se dos ignorantes. E mais que tudo isso, ainda, a sua alma soube sempre compreender o poder supremo do nosso Creador e procurou sempre incutir aos descrentes sua fé inabalável.
Que Deus o tenha em Sua Eterna Glória gosando a recompensa das virtudes que praticou cá na terra. “
Rosalda
Cascatinha, 13 de dezembro de 1934

Publicado no jornal O Carmo do Rio Claro , domingo, 23 de dezembro de 1934
Deixo aqui minha homenagem à família Pereira, meus queridos, avós, meu amados tios. Na família Pereira, além do Tio João Teixeira, muitos outros foram poetas e alguns foram santos. É o caso do Tio Nilton, que padeceu 18 anos em um sanatório para tuberculosos. Como Tio João, saiu para o Rio de Janeiro para buscar a vida e encontrou a dor, mas entre poesias. Escrevia poemas para o jornal local. As cartas da Vó Beatriz para Tio Nilton converteu um colega de quarto a Deus. Dela veio a fé de minha mãe Nivalda, a Mamãe Noela do Carmo, uma das fundadoras do Lar Nossa Senhora do Carmo, ministra da Eucaristia. Ela, veio a minha fé. Nesta Semana Santa, reverencio a minha genética de santos e mártires da família Pereira de Carmo do Rio Claro.

FELIZ PÁSCOA! LEMBREM-SE, PÁSCOA É MUITO MAIS QUE COELHINHOS E CHOCOLATES.